Enfoques e Desfoques da Interação Mediada por Computador
A seguir uma coletânea e sínteses das citações do artigo Enfoques e desfoques no estudo da interação mediada por computador de Alex Primo
Introdução
- O que se pretende dizer/discutir com este texto?
- Deve-se limitar a uma única opinião?
O que é interação?
Interação: uma “ação entre” os participantes do encontro, com isso, o foco se volta para a relação estabelecida entre os interagentes, e não nas partes que compõe o sistema global.
- Interação, segundo os estudos em lingüística histórica de Starobinski (2002), não apresenta antecedentes da língua latina clássica. O autor relata que o substantivo interaction figurou pela primeira vez no Oxford English Dictionary em 1832 (apresentado na época como um neologismo), e o verbo to interact, no sentido de agir reciprocamente, em 1839.
- Interação, na França, surgiu apenas depois de outro neologismo: “interdependência” (que figurou em dicionário apenas em 1867).
AÇÃO RECÍPROCA/ INTERDEPENDÊNCIA
Enfoque transmissionista
Emissão de uma mensagem de um pólo (emissor/webdesigner) a outro (receptor/”usuário”).
Trabalhar-se (tanto em pesquisa, quanto em desenvolvimento) a “interatividade” como uma polarização entre webdesigner e “usuário” é manter-se preso à abordagem transmissionista de comunicação.
O enfoque trasmissionista trabalha a interação mediada por computador como a emissão de uma mensagem de um pólo (emissor/webdesign) a outro (receptor/usuário).
Questão da bidirecionalidade
A adoção do conceito de bidirecionalidade, como característica fundamental da “interatividade” , pouco ajuda, pois reduz o processo interativo ao burocrático vai-e-vem de mensagens.
Não interatividade
Não há interatividade, isto é, ação recíproca e interdependente, na unidirecionalidade de informação.
Interações instrutivas
O ser humano age conforme sua estrutura e não através de “interações instrutivas” (que resultaria em ser determinado pelo agente perturbador e não pela sua própria dinâmica estrutural).
(Máquinas como computadores de fato funcionam a partir de interações instrutivas. Elas reagem conforme determinações externas, gravadas em peças como discos rígidos e chips.
Com o intuito de fugir da linearidade de tal abordagem, alguns teóricos vão recorrer ao conceito de bidirecionalidade como característica fundamental da “interatividade”.
Problemas com a bidirecionalidade (no âmbito do hardware)
Existe uma confusão, sugere o autor, no tratamento da bidirecionalidade, decorrente da compreensão de “interatividade” em termos de hardware.
Enfoque informacional
Valoriza a possibilidade de escolha entre alternativas disponíveis (conceito de entropia por Shannon e Weaver)
Weaver (1978, p. 28)
“a palavra informação não se refere tanto ao que você efetivamente diz, mas ao que poderia dizer. Isto é: informação é uma medida de sua liberdade de escolha quando seleciona uma mensagem”.
Brenda Laurel (1991, citada por Loes de Vos, 2000) sobre “interatividade” :
Freqüência (em que momentos se pode reagir);
Amplitude (quantas escolhas estão disponíveis);
Significância (que impacto as escolhas têm).
Silva (2000, p. 137) binômio permutabilidade-potencialidade
A liberdade de navegação aleatória é garantida por uma disposição tecnológica que faz do computador um sistema interativo. Esta disposição tecnológica permite ao usuário atitudes permutatórias e potenciais. Ou seja: o sistema permite não só o armazenamento de grande quantidade de informações, mas também ampla liberdade para combiná-las (permutabilidade) e produzir narrativas possíveis (potencialidade).
Williams, (1990, p. 139) a extensão de escolhas, tanto em detalhe quanto em amplitude, é predeterminada.
Starobinski (2002, p. 206), “o utilizador do procedimento interativo é sempre cativo do sistema preparado pelo programador. O utilizador faz as escolhas que o programador colocou no sistema. Por mais numerosas que sejam as opções possíveis, elas estão sempre sob controle”.
Primo, este trabalho entenderá que a reação do sistema digital diante da escolha entre certas alterativas é sim uma forma de interação, mas de tipo limitado. Trata-se na verdade de um processo que gira em torno de potenciais.
Lévy (1996, p. 152), potencial é aquilo que já está completamente constituído, mas permanece no limbo. Isto é, será realizado se não houver interferência. Trata-se, pois, de uma reserva. Ou seja, o potencial é exatamente como o real, só lhe faltando a existência. A realização, por outro lado, seria uma seleção de possíveis pré-determinados, a ocorrência de um estado pré-definido.
Deleuze (1988, p. 340), “Cada vez que colocamos o problema em termos de possível e de real, somos forçados a conceber a existência como um surgimento bruto, ato puro, salto que se opera sempre atrás de nossas costas, submetido à lei do tudo ou nada”
Deleuze (1988, p.342), o potencial só inspira um pseudomovimento, um falso movimento do possível.
Enfoque tecnicista:
A interação mediada por computador, por depender de um aparato tecnológico, recebe normalmente um tratamento teórico que destaca as características técnicas da máquina como a "capacidade do canal".
Weaver (1978, p. 30): Assim descreve em termos de quantidade de informação que ele pode transmitir, ou melhor, em termos de sua capacidade de transmitir aquilo que é produzido a partir de uma fonte de informação dada.
Steuer (1993, p. 1): Para ele, “interatividade" é a extensão em que os usuários podem participar modificando a forma e o conteúdo do ambiente mediado em tempo real.
Fatores que contribuem para a interatividade:
Velocidade: A taxa com que um input pode ser assimilado pelo ambiente mediado;
Amplitude (range): Refere-se ao número de possibilidades de ação em cada momento;
Mapeamento: A habilidade do sistema em mapear seus controles em face das modificações no ambiente mediado de forma natural e previsível.
Jensen (1999): Também inscreve-se nessa tendência, com o objetivo de produzir uma tipologia que classifique a maior gama possível de meios de comunicação.
Tráfego de informação: Quem possui e oferece a informação e quem controla sua distribuição (distribuição tradicional ou em massa).
Sua classificação que estuda a “interatividade” a partir das "caraterísticas dos meios". parte da tipologia de Bordewijk & Kaam (que aproxima-se do pensamento do McLuhan sobre "O meio é a mensagem").
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Informação produzida por um fornecedor central |
Informação produzida pelo consumidor |
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Distribuição controlada por um fornecedor central |
1) TRANSMISSÃO |
4) REGISTRO |
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Distribuição controlada pelo consumidor |
3) CONSULTA |
2) CONVERSAÇÃO |
Entendendo “interatividade” Jensen (1999, p. 18) propõe quatro subconceitos ou dimensões:
1) interatividade de transmissão, medida do potencial do meio em permitir que o “usuário” escolha qual fluxo de informações em mão única ele quer receber.
2) interatividade de consulta, medida do potencial do meio em permitir que o “usuário” solicite informações em um sistema de mão dupla com canal de retorno;
3) interatividade de conversação, medida do potencial do meio em permitir que o “usuário” produza e envie suas próprias informações num sistema de duas mãos;
4) interatividade de registro, uma medida do potencial do sistema em registrar informações do “usuário” e responder às necessidades e ações dele.
A partir disso a definição de "interatividade":
"A medida da habilidade potencial da mídia em permitir que o usuário manifeste uma influência no conteúdo e/ou forma da comunicação mediada".
O seguinte modelo, chamado de “cubo da interatividade” (uma representação tridimensional das dimensões de “interatividade”), traz exemplos dos meios classificados de acordo com a tipologia proposta.
É preciso atentar, porém, que o modelo do autor centra-se especificamente nas características do canal. Isto é, o cubo de Jensen parte do potencial técnico dos diferentes meios e não do estudo da relação entre os interagentes e da evolução desse relacionamento, é exatamente o oposto do que o estudo propõe, que a interação não deve ser vista como uma característica do meio, mas como um processo desenvolvido entre os interagentes.
Enfoque mercadológico
Al Ries/Laura Ries
Visão Sfez (1994)
Para Sfez (1994), a “interatividade” cria apenas uma ilusão de expressão.
A interatividade a serviço do pólo do designer/emissor…
Potencial comercial da propaganda interativa e comércio online
Quanto ao desenvolvimento e à exploração de novas tecnologias televisivas (como o video-on-demand, Rose (1999, p. 6) confirma que: “One of the major driving forces for interactive television is the comercial potencial of interactive advertising and online shopping”. Indignado com esse direcionamento, Bucci (2001, p. 2) reclama: “Essa tal de interatividade deveria se chamar interpassividade. Nada mais. Interpassividade consumista: anabolizante para o comércio, nuvem de fumaça para a democracia”.
Intercâmbio de informações
Mas se “interatividade” é um argumento de venda, como ela é tratada pelo marketing “Lei da Interatividade”. Trata-se da possibilidade de se inserir dados, de acordo com as instruções apresentadas no site, e obter as informações solicitadas.
O problema do diálogo
Os autores, contudo, não apontam em momento algum o diálogo como exemplo de “interatividade” (com se ele não fosse interativo!). Ora, ao se estudar as diferentes formas e intensidades de interação com e através do computador (e suas redes) é preciso contemplar práticas de conversação, onde cada rodada modifica os interlocutores, seus comportamentos, suas mensagens e também o próprio relacionamento entre eles.
Metáfora tecnicista
Por outro lado, é preciso tomar cuidado com as metáforas tecnicistas que, por exemplo, comparam um mecanismo de busca a um diálogo.
Enfoque antropomórfico
Bairon (1995, p. 16), “Por interativo podemos entender todo sistema de computação onde se manifesta um diálogo entre o usuário e a máquina”.
Marchand (1987, citada por Silva, 2000, p. 114). Eu dialogo com a mensagem quando eu a construo ou a consulto. Essas manipulações que visam a modificar a mensagem, portanto os elementos textuais ou sonoros que a compõem, se operam através de uma tela interativa. Interativa porque ela é lugar de diálogo, mas também porque ela é o meio desse diálogo. A tela transparente, simplesmente irradiada do interior, desapareceu. Ela se tornou “inteligente”
Rafaeli (1988, p. 117), Defender a conversação humana como um tipo ideal é atraente, mas problemático. Definindo interatividade como “conversacionalidade” é tanto subjetivo quanto simplista.
Searle (1997), Máquinas não possuem o que ele chama de intencionalidade intrínseca. Trata-se de um fenômeno de natureza biológica dos seres humanos e outros animais.
Abordagem sistêmico-relacional de interação
1- Perspectiva Sistêmico-Relacional
a. Gregory BATESON
Teoria do duplo vinculo
Interelacionamentos, em vez da causalidade unilateral
b. B. Aubrey FISHER
A comunicação é o relacionamento que os parceiros criam através da interação.
c. L. Edna ROGERS
A relação da comunicação não está em UM ou o OUTRO e sim no ENTRE, está na CONEXÃO.
d. Keneth J. GERGEN
COGITO ERGO SUM
COMMUNICAMUS ERGO SUM
Pois assim se pode enfatizar na interação os RELACIONAMENTOS INTERDEPENDENTES.
e. B. Aubrey FISHER
Encadeamentos dos atos comunicativos:
O SIGNIFICADO não funciona só com associações de (estímulo-resposta) nem é um domínio individual.
Assim o outro na interação é necessário para “suplementar” a ação e lhe dar uma "função" no relacionamento.
f. Jean PIAGET
Ao estudar a própria construção da inteligência em busca do FATO PRIMITIVO, ele concluiu..
- Não é o indivíduo
- Não é o conjunto de indivíduos
E sim a sua RELAÇÃO modificando ininterruptamente as consciências individuais!
g. Cleci MARASCHIN
h. Margarete AXT
Elas concluíram o CONHECIMENTO COMO RELAÇÃO
O conhecimento deve ser pensado como AÇÃO e não como FACULDADE.
Não é um reservatório estático sem transformação, movimento ou ressignificação. Não configura um objeto que se possua ou não. Não pode ser compreendido como matéria, substância. É antes, ação, exercício, atividade, movimento, redes, relações, conexões.
Tipos de interação mediada por computador segundo uma abordagem sistêmico-relacional
- Interação mútua - a interação mútua é um constante vir a ser, que se atualiza através das ações de um interagente em relação à(s) do(s) outro(s).
- Como exemplo pode-se citar um debate na sala em um fórum de um ambiente de educação a distância.
- Interação reativa - caracteriza-se pelas trocas mais automatizadas, processos de simples ação e reação.
- Como exemplo pode-se citar o GIMP (General Image Manipulation Program), um programa de código aberto voltado principalmente para criação e edição de imagens raster (bitmaps), e em menor escala também para desenho vetorial.
- Multi-interação - estebelece-se uma realção simultânea entre a interação mútua e a interação reativa.
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